Em meio ao conturbado processo de transferência de Ronaldinho Gaúcho para a equipe do Flamengo, diversos veículos de comunicação relacionaram esse fator a um hipotético dano à imagem do jogador junto ao torcedor brasileiro. A posição de Assis, irmão e empresário, durante a negociação para o retorno de Ronaldinho ao Brasil, gerou incontáveis críticas de profissionais da imprensa, que indicavam o “leiloamento” do craque entre três clubes nacionais – além da equipe carioca, Palmeiras e Grêmio concorriam diretamente.
Entretanto, segundo especialistas da área de marketing esportivo, apesar da polêmica criada em torno do ex-camisa 10 da seleção brasileira, a reputação do atleta não deverá sofrer abalos consistentes que venham a prejudicar um futuro projeto de exploração de imagem criado pelo Flamengo. É o que afirma Amir Somoggi, diretor da divisão de gestão do esporte da Crowe Horwath RCS, uma das maiores empresa de auditoria e consultoria do país.
“Eu não concordo com a imprensa que a imagem dele [Ronaldinho] tenha sido desgastada. Ele estava negociando como em qualquer negócio. Fica desgastada a imagem de alguém que não tem proposta. Não estou de acordo com essa teoria de que seu irmão estava fazendo leilão. Quem estava fazendo leilão eram os clubes”, apontou.
Na mesma linha, Rafael Plastina, diretor de marketing e desenvolvimento de uma empresa especializada em consultoria esportiva, a Informidia, revelou inclusive aspectos positivos da negociação, devido à exposição de mídia gerada a partir deste processo. O ex-diretor de marketing do Vitória rechaçou ainda a possibilidade de haver prejuízo à figura do talentoso jogador.
“Em relação aos torcedores do Grêmio, que já tinham uma ressalva pela saída dele para a Europa, pode ser que fiquem até chateados, ou alguns mais radicais façam protestos como a gente viu na televisão. Mas eu não acredito que seja uma unanimidade. Eu acho que é muito pouco para arranhar a imagem do atleta”, argumentou Plastina. “Acredito que nessa novela, que até concordo que foi realmente muito longa e desgastante, muita coisa poderia ser evitada, mas não chegou a ponto de arranhar a imagem do Ronaldinho – ao contrário, cria muita expectativa para sua estreia”, opinou.
Em entrevista coletiva recente, o presidente do clube gaúcho, Paulo Odone, transpareceu sua insatisfação com a maneira com que o empresário do atleta conduzia as negociações entre sua instituição e os demais rivais interessados nessa contratação. Durante o período, por sinal, representantes das três direções chegaram a dar como certo o acerto com Ronaldinho.
Após desistir oficialmente da aquisição, o treinador palmeirense, Luiz Felipe Scolari, também criticou a postura do irmão do jogador com o clube paulista. E disparou: “Quem não cumpriu a palavra foi o Assis”.
O jornalista Erich Beting, diretor-executivo da Máquina do Esporte e professor dos cursos de pós-graduação em Gestão e Marketing Esportivo da Universidade Gama Filho, da Faculdade Trevisan e da Universidade Anhembi-Morumbi, porém, não entende que Ronaldinho tenha saído com sua imagem ilesa nessa história.
Ele acredita, sim, que a performance com a camisa do Flamengo poderá apagar possíveis danos. Situação parecida com a do ‘xará’ Ronaldo, que em 2009 deixou o Milan para atuar pelo Corinthians, após se recuperar de mais uma de suas lesões ligamentares.
“A imagem de Ronaldinho fica arranhada. Não fica 100%, mas depende muito se ele jogar bem para fazer com que isso acabe de vez. O caso do Ronaldo mostra bem isso. Ele precisou entrar em campo e mostrar resultados efetivos para que as empresas entrassem de vez no projeto. O Ronaldinho deve seguir nesta linha. Quanto maior o sucesso dele em campo, mais ele vai atrair os patrocinadores”, comparou Erich.
Ronaldinho e o marketing rubro-negro
A relação de Ronaldo, o Fenômeno, com o Corinthians se tornou um ótimo exemplo de projeto de sucesso na exploração da imagem do ídolo, como mote para a atração de receitas. A repatriação do jogador abriu as portas para o retorno de diversos companheiros já consagrados ao Brasil. Robinho, Fred, Adriano, Roberto Carlos, entre outros, incluem a lista de futebolistas que trocaram o conforto e a estrutura europeia pelo bom momento do mercado esportivo brasileiro.
A captação de recursos a partir do marketing foi o grande agente viabilizador da contratação de Ronaldinho Gaúcho pelo Flamengo. Segundo especialistas, o projeto deve seguir os passos do que já foi delineado na parceria Ronaldo/Corinthians.
“Se o Flamengo conseguir metade do que o Ronaldo fez já é um sucesso. Eu acho que o clube deveria seguir a cartilha do que foi feito no Corinthians. Não vejo porque fazer diferente. O Corinthians fez crescer seu faturamento, fica muito claro que foi um sucesso. Tem que explorar bem esta relação de paixão que o torcedor tem pelo ídolo e o interesse do patrocinador por esse tipo de projeto. Não adianta só o clube pagar a conta. Ele tem que faturar com o negócio”, afirmou Amir Somoggi.
Existe ainda a chance de aprimorar o que já foi realizado pelos dirigentes corintianos, promovendo novas iniciativas na área de marketing. É o que pensa Plastina, que realizou mestrado em marketing pela ESMA (Escuela Superior de Marketing y Administraccion).
“O Flamengo tem uma experiência anterior. Ele sabe tudo que deu certo e tudo que não deu certo com o Ronaldo. Acredito que nessa linha o Flamengo pode aproveitar e tentar incrementar com uma série de ações comerciais que não foram feitas com o Ronaldo e aprimorar as que não deram certo”, concluiu.

